quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Só se fala dele: "CINQUËNTA TONS DE CINZA"



Só se fala dele: “Cinquenta Tons de Cinza”, fenômeno da literatura que, juntamente com suas seqüências “Cinqüenta Tons Mais Escuros” e “Cinqüenta Tons de Liberdade”, vendeu mais de 40 milhões de cópias no mundo todo e cujo alcance ainda vai se expandir ao cinema — os direitos das obras foram comprados por 5 milhões de dólares pela Universal Pictures e Focus Features, e um “Cinqüenta Tons de Cinza – O Filme” já está em fase de pré-produção sob os cuidados de Michael de Luca e Dana Brunetti, que trabalharam no premiado “A Rede Social”. Mas afinal, qual é a desse livro?

Resumindo muito resumidamente, “Cinqüenta Tons” é o “Crepúsculo”, só que com sexo no lugar dos vampiros. Parece simplista demais? Até que não, já que as obras apresentam uma longa lista de semelhanças; seguem apenas algumas, também para não estragar a surpresa de quem quiser ler a trilogia:
- uma heroína jovem, bonita e inteligente, mas insegura, filha única de pais separados, madura, porém inexperiente em relacionamentos, inacreditavelmente desengonçada e com um dom para atrair confusão. E, segundo seus respectivos pares românticos, muito cheirosa:
 “Crepúsculo”     “Cinqüenta Tons”

- um herói mais velho (guardadas as devidas proporções, já que Edward Cullen, de “Crepúsculo”, nasceu em 1901), impossivelmente belo, dono de um temperamento volátil e de segredos sombrios – mas, no fundo, com um bom coração –, de gosto musical eclético e uma queda por veículos velozes:
 “Crepúsculo”    ”Cinqüenta Tons”

- uma narrativa centrada no relacionamento entre a heroína e o herói, recheada de referências sexuais, mais especificamente sado masoquistas, com descrições detalhadas de o-que-é-usado-onde-e-como:
 “Crepúsculo”    ”Cinqüenta Tons”

Brincadeiras à parte, as semelhanças citadas acima não são mera coincidência. A britânica Erika Leonard James, mais conhecida pelo seu pseudônimo literário E L James, não faz questão nenhuma de esconder o fato de que seus “Cinqüenta Tons” nasceram da história de “Crepúsculo”. Infeliz com seu emprego, a ex-gerente de produção de TV se apaixonou pela saga adolescente (ela afirmou em entrevista à “Veja” que leu os quatro livros em cinco dias) e imediatamente teve a inspiração de começar a escrever. Depois de descobrir o fan fiction – estilo em que fãs imaginam histórias paralelas derivadas de determinadas obras –, ela achou que apimentar a relação entre Edward e Bella “poderia ser um exercício divertido”, e foi daí que surgiu a sua trilogia. Suas primeiras edições foram publicadas em 2011 por uma pequena editora australiana em forma de e-book. Meses depois, já na Vintage Books, as vendas dos três livros a deixavam aproximadamente um milhão de dólares mais rica por semana. Em abril de 2012, ela foi nomeada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista “Time”.

Um artigo do “The New York Times” publicado também em abril tenta explicar o sucesso de “Cinqüenta Tons”, afirmando que seu apelo está no fato de que ele não é uma novidade, e sim um “produto antiquado re-imaginado como inovação”. Com a disposição de todo tipo de material erótico e pornográfico a qualquer hora e em qualquer lugar, o melhor jeito de apresentar algo novo seria dar um passo para trás, com uma “reminiscência atualizada de novelas escandalosas do passado, incluindo “Jane Eyre” e (…) “The Sheik”, dos anos 1920. A principal diferença é a de que [a trilogia “Cinqüenta Tons”] se passa na Seattle moderna e mistura mensagens de texto sexuais com palmadas”. Outra teoria do jornal é a de que, atualmente, todos os personagens fictícios femininos são fortes, trabalhadores e independentes, e “elas não se entregam a fantasias regressivas sobre milionários ricos e arrojados que anseiam em tornar a vida da heroína mais fácil”. A autora do artigo pondera: “Particularmente agora, quando ter tudo significa fazer tudo sozinha, há um fascínio especial sobre o devaneio de permitir que outra pessoa tome o controle”.

Outra teoria (dessa vez pessoal) é mais simples (e romântica?): se ignorarmos os elementos de fantasia (no sentido sobrenatural, em um caso, e sexual, em outro), fica muito claro que o que rege tanto “Crepúsculo” quanto “Cinqüenta Tons” é a história de um amor incondicional. Em tempos de “a fila anda”, em que iniciar um relacionamento requer um enorme esforço, mas terminá-lo precisa de muito, muito pouco, quer abstração mais apelativa do que o romance devotado de Edward/Bella e Christian/Anastasia? Em entrevista publicada a “Veja”, a própria E L James afirmou que o que a seduziu em “Crepúsculo” foi “o fato de ser um romance tão assumido e tão desavergonhado no seu romantismo – feito sem ironia, sem tentar parecer mais do que é”. Na ótima definição de uma romancista ao site eonline.com, em reportagem sobre “Cinqüenta Tons”: “É a clássica história de um grande amor – o homem poderoso que descobre essa mulher aparentemente comum, e se apaixona por ela e a faz sentir especial. Isso é crack emocional para mulheres”.
Seja lá qual for a explicação, o fato é que a trilogia é sucesso absoluto, e está gerando uma rede de merchandising que não deve se esgotar tão cedo: já foram anunciados uma linha de roupa, de lingerie e de maquiagem, além de um álbum com 15 faixas de músicas clássicas que são citadas ao longo dos três livros. Isso sem contar o boom de vendas de produtos relacionados à história de Christian e Anastasia, de brinquedinhos de sex shop (a BBC reporta que alguns itens citados em “Cinqüenta Tons” tiveram um aumento de procura de 200%) até cordas de lojas de ferragem (quem leu o livro vai entender).

Além, é claro, do filme, já citado no início do texto, e cujo elenco (ainda não definido) é o principal assunto dos fóruns de discussão sobre “Cinqüenta Tons”. Por enquanto, os mais cotados para os papéis de protagonistas são Ian Somerhalder (Vampire Diaries) e Emma Watson (“Harry Potter”), mas já que o espaço aqui do blog é aberto a opiniões pessoais, deixo as minhas escolhas: para viver Christian Grey, de “cabelo revolto acobreado, e olhos cinzentos vivos”, o páreo é entre Henry Cavill (o novo “Super-Homem”) ou Richard Madden (o Robb Stark de “Game of Thrones”); e para Anastasia Steele, a “garota pálida de cabelo castanho e olhos azuis grandes demais para o seu rosto”: Michelle Trachtenberg (“Eurotrip – Passaporte Para a Confusão”; Gossip Girl) ou Analeigh Tipton (“Amor à Toda Prova”).

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